Browsing Tag:

política

ganhando-ou-perdendo-nos-ja-perdemos

O título da postagem pode parecer confuso, mas se você tiver paciência de ler até o final, verá o quanto faz sentido. Nós já perdemos.

Primeiramente, estou aqui parafraseando a presidenta Dilma Rousseff que em 2015 disse: “Não acho que quem ganhar ou quem perder, nem quem ganhar nem perder, vai ganhar ou perder. Vai todo mundo perder...”. Na época a mensagem me pareceu confusa e obscura, mas agora a tomo para mim, pois é assim que vejo o atual cenário.

Diante a tanto ódio, eu não tenho mais condições de discutir política. Sou feminista, com muito orgulho e consciência, além de ser mulher e negra, o que me faz compreender que o discurso de ódio, muitas vezes, se direciona também a mim. Sim, eu sou um alvo.

Então eu escrevo. Eu escrevo porque somente assim eu posso colocar para fora toda essa angústia e tristeza que têm apertado a minha alma, que têm me tirado o sono, que têm levado a minha paz. Eu escrevo enquanto ainda me é permitido fazê-lo, mesmo sabendo que aumento o alvo que tenho em minhas costas.

A minha primeira perda tem sido pelo desgaste, uma perda de energia física e espiritual para argumentar com tanta gente que tem se feito de surdo e cego para tudo o que está se revelando neste momento. Através de argumentos como “não é bem assim…” ou ataques do tipo “você quer que o Brasil vire uma Venezuela?!” e outras tantas frases prontas e repetidas retiradas de grupos de Whatsapp e Facebook, é impossível travar qualquer diálogo, no mínimo, coerente. É como falar com um gravador, com frases pré-definidas e nenhum ouvido, consciência ou capacidade argumentativa.

Retornando ao título sobre ganhar ou perder, no meu ver, eu já perdi, e perdi muito. O ódio, o preconceito e a perversidade das pessoas sempre existiu. Não foi como um passe de mágica que aquele seu vizinho homofóbico começou a gritar aos quatro ventos que iria “matar viado”; nem foi da noite para o dia que o seu tio se tornou machista e concluiu que, por você ser mulher, merece ganhar menos que ele que é homem; nem foi ontem que seu primo passou a achar que foi o bolsa-família que quebrou o país. Lamento informar para você que eles sempre pensaram assim.

Então por que agora eles decidiram dar vazão a esse lado?

O momento político brasileiro permitiu que essas pessoas falassem o que antes escondiam a quatro chaves por terem algum “freio moral“. Entretanto, o que vemos agora é uma figura pública, exaltada por muitos, que através de um discurso de ódio contra as minorias políticas abre uma espécie de permissão. Ora, se ele que é uma pessoa conhecida pode falar isso tudo e não há qualquer sanção, por que você também não poderia ser machista, preconceituoso, homofóbico? O “freio moral” foi substituído por uma permitividade camuflada na ideia de que tudo é “mimimi” e da dita “liberdade de expressão”.

O interessante sobre essa dita “liberdade de expressão” é que ela somente é levantada quando uma piada preconceituosa é feita ou quando é dito ou feito algo que fere as minorias políticas. Fora isso, a tal “liberdade de expressão” não existe, principalmente para artistas que se posicionam contra certas visões políticas que estão por aí.

As divergências nas visões políticas saíram do âmbito da conversa exaltada e partiram para as agressões físicas, ameaças de morte e para o homicídio. Quantos casos de violência já não vimos relatados nos jornais nos últimos dias? As ameaças de morte e os símbolos nazistas estão espalhados por aí e são tratados com deboche, como se uma histeria coletiva tivesse se instaurado entre aqueles que se sentem ameaçados por um levante fascista. São pessoas com medo, com crise de ansiedade, com pavor do futuro nada auspicioso que se aproxima.

Claro, a democracia nos permite escolhermos quem entendemos ser o melhor para o país. Entretanto, só temos escolha porque há democracia e nesse levante, talvez não sejamos por muito tempo um país democrático com direito de escolha. Então a perda será ainda maior.

Nós já perdemos. Já perdemos muito. Uns perderam a humanidade e outros a esperança na humanidade. Eu estou do lado dos desiludidos. Aqueles meus vizinhos, primos e amigos, por mais que seja dolorido dizer isso, sempre foram cheios de preconceitos. Eles sim, perderam a humanidade. Eu, como mulher negra que sou, toda vez que os vejo levantar certas bandeiras e exaltar discursos tão reacionários e discriminatórios, eu os ouço dizer que também me acham inferior e me odeiam pelo meu gênero, pela cor da minha pele e pelo meu posicionamento político.

Independente de quem ganhar o segundo turno das eleições, eu sinto que eu já perdi.

by
Share: