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Filosofando

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Quem tem TV ou internet deve ter visto nas últimas semanas um meme de uma moça com um cabelo crespo afro super cheio. Tal brincadeira (que nem assim deveria ser chamada), entretanto, foi de muito mal gosto e trouxe à tona algumas situações muito incomodas quando se fala sobre racismo no Brasil.

Não gostar de cabelo crespo é racismo?

De maneira alguma não gostar de cabelo crespo é racismo, porém querer estabelecer valores indicando que alguém tem um cabelo “bom” por ser liso e outro tem um cabelo “ruim” por ser crespo já é considerado racismo. Ora, pense aqui comigo: Se os europeus, que dominaram o mundo durante as expansões marítimas e estabeleceram a maneira eurocêntrica de agir, pensar e até gostar, não tivessem colonizado as Américas ou escravizado os povos africanos, qual seria hoje o nosso conceito de beleza? Será que ainda teríamos como belo os cabelos lisos, a pele clara e os olhos verdes e azuis que impera na maior parte do nosso imaginário? Ou será que o cabelo crespo e a pele negra poderiam ser um padrão de belo? O seu gostar ou não de algo e sua perspectiva sobre o que é ou não belo passam, não só por um crivo cultural, mas também por toda uma construção ideológica. Será que você gosta mesmo disso ou foi a mídia, as revistas de moda que te doutrinaram?

Cabelo crespo e cheio?! Imagina o fedor!

Aposto com quem quiser que um cabelo alisado com formol é bem mais fedorento que qualquer cabelo crespo e cheio. Não é porque um cabelo é crespo que ele é fedorento. Cabelos são lavados e estabelecer uma relação direta entre cabelo crespo e higiene nos faz cair mais uma vez na questão do racismo. Todo e qualquer cabelo pode feder. Seja o cabelo liso, seja crespo, cacheado… se não for lavado, pode ficar fedorento. É uma questão de lógica. Claro, quanto maior o cabelo, mais difícil é a manutenção da higiene dele, então, porque quando as pessoas veem um cabelo liso, bem grande, não exclamam que deve feder? Em geral, as pessoas se derretem em elogios, mas nunca, em hipótese alguma, sugerem que pode existir falta de higiene.

Por que ela não prende esse cabelo?

Andar com o cabelo preso pode ajudar muito num dia de calor. Entretanto, ter um cabelão e deixar apenas preso é um ultraje. Você cuida, dá massagem, cultiva sua “juba” e tem que andar com ela amarrada porque os outros se sentem incomodados. Isso é justo? Eu particularmente não acho. Quando eu tinha cerca de 9 anos, um dos meus sonhos era ir de cabelo solto para escola. Meu cabelo é crespo e vivia sempre amarrado, mas um dia tomei coragem e fui com ele solto. As outras crianças avacalharam horrores e eu fui chamada à direção e sabe o que a diretora fez? Aconselhou-me a prender o cabelo porque eu estava distraindo as outras crianças. Eles me humilharam e eu levei a bronca?! Cabelo crespo não tem que andar preso e quem tem o cabelo crespo não tem que se prender a esses estereótipos eurocêntricos de beleza.

O seu black está atrapalhando minha visão!

Como o Sol atrapalha com sua exuberante luz, existe alguns blacks que podem atrapalhar a visão de terceiros. E daí? Existem pessoas com o cabelo liso e comprido que ficam jogando o cabelo de um lado para o outro dando “chicotada” nos outros e isso incomoda menos? Será que não existe uma certa implicância com o cabelo crespo? E por que existe essa implicância?

Por que não vai alisar esse cabelo?

Achar que cabelo crespo é sinônimo de falta de higiene pode culminar em sugerir que o cabelo seja alisado. Afinal, um cabelo liso é muito mais arrumado, não é o que dizem? Ora, por que o cabelo alisado (a base de formol e não sei mais o quê) é melhor que o cabelo crespo natural? Eu usei o cabelo liso durante anos e, quando decidi assumir meu crespo, muita gente veio me dizer que um cabelo liso me deixava com a aparência mais sofisticada. Eu não acho. Por que eu preciso me encaixar num padrão de beleza que não foi feito para mim? Eu não vou embranquecer. Meus olhos não vão ficar claros. Meu cabelo não vai nascer liso. Os meus cabelos são crespos, assim como de muitas meninas e mulheres no nosso país. Estipular um padrão de beleza quase impossível e bombardear a autoestima delas. É afirmar que elas nunca poderão ser bonitas e, se quiserem ser, terão que sempre tentar alcançar um padrão branco de beleza.

É muito vitimismo!

Não é vitimismo. Não é mimimi. O racismo incomoda, seja ele expresso ou disfarçado numa “brincadeirinha” supostamente inocente. É preciso combater sim os pequenos racismos e também o racismo cordial, tão difundido no Brasil. Nem tudo é brincadeira. “Cabelo ruim, cabelo duro, cabelo espetado, cabelo de Bombril…” Você está falando do outro de forma pejorativa, humilhando, o colocando para baixo. Que tipo de brincadeira é essa que fere o outro? Muitos apontaram as reclamações, sobre o meme que citei no começo dessa postagem, como simples e puro vitimismo, afinal, é só uma brincadeira, não é?

Faixa bônus: Não existe racismo no Brasil. Todo mundo tem um parente negro.

Você ter um tio, um avô, um pai ou um o que quer que seja negro não te fará negro. Provavelmente, você afirma que no Brasil não tem racismo porque você nunca sofreu com ele ou teve empatia para compreender o que é passar por uma situação vexatória por causa do racismo alheio. Pense nas seguintes situações: Um homem parado na porta giratória do banco ou um motorista abordado aleatoriamente numa blitz ou um garoto sendo seguido pelos corredores de uma loja de departamento. Qual a cor deles?

Eu, como mulher negra, me senti pessoalmente incomodada com os comentários feitos sobre o cabelo da Yasmin Stevam e me manifestei nas redes sociais algumas vezes sobre o assunto. Vi alguns comentários absurdamente idiotas que me deixaram ainda mais incomodada. Não sei se as pessoas ainda não compreenderam o que é racismo ou se sabem e fazem de conta que não compreenderam o conceito. Através da questão do cabelo crespo, busquei apontar algumas manifestações de racismo, mas se você ficou na dúvida se sua atitude é ou não racista, para com o cabelo crespo, faça o teste a seguir:

Teste: Será que tenho atitudes racistas com o cabelo crespo?

Marque 1 ponto para cada alternativa verdadeira.

  1. Você já chamou um cabelo crespo de duro, ruim ou Bombril.
  2. Você já sugeriu que alguém de cabelo crespo alisasse o cabelo.
  3. Você já riu do cabelo de alguém por ser muito cheio.
  4. Você já pediu a alguém, com cabelo crespo, que prendesse o cabelo.
  5. Você já fez comentários maldosos sobre o cheiro do cabelo crespo.
  6. Você já fez comentários sobre a presença de piolhos no cabelo crespo.
  7. Você já disse que alguém está desarrumada por estar com o cabelo crespo.
  8. Você já disse que alguém reclamar de preconceito por causa do cabelo crespo é vitimismo ou mimimi.
  9. Você já apelidou alguém por causa do cabelo crespo.
  10. Você já considerou que alguém é feio por causa do cabelo crespo.

Resultado

8 a 10 pontos: Cuidado! Talvez seja o momento de você reavaliar seu conceito de belo e a questão do racismo.

5 a 7 pontos: Zoar o cabelo crespo é racismo. Talvez seja o momento de você estudar um pouco sobre racismo cordial.

1 a 4 pontos: Existe algumas coisas que você precisa reavaliar sobre estereótipos de beleza. É sempre tempo para questionarmos e desconstruirmos alguns preconceitos.

Espero que tenham gostado da postagem e até a próxima!

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