Browsing Category:

Escritora

in Escritora, Feminismo

As três bonecas

at
as-tres-bonecas

Estava pronta. Ela agora era igual as outras bonecas que descansavam na estante próxima à mesa de trabalho. Então, ele pintou um sorriso, igual ao das outras duas que o observavam com seus olhos de vidro.

O Criador estava orgulhoso de sua criação, mas percebeu um defeito na última boneca. Ela falava e, pior, as outras bonecas a ouviam. Então, ele pegou a terceira boneca e costurou sua boca num sorriso eterno porque as bocas das bonecas serviam apenas para sorrir, nunca para questionar.  Ele a devolveu à estante, agora silenciosa.

O Criador estava novamente feliz com sua criação. As três bonecas sorriam na estante. Um dia, veio um jovem visitante e, observando as bonecas, manifestou o desejo de ter uma. O Criador sabia que as bonecas não seriam para sempre suas e sentiu-se triste e feliz, deixando que o Jovem Visitante escolhesse uma de suas criações. Ele escolheu a primeira, a favorita do criador.

O Criador, um dia, olhando para a estante, viu que a primeira boneca havia retornado. O vestido, antes tão limpo, estava amarrotado. Os cabelos, antes tão arrumados, estavam embaraçados e nos bracinhos se soltavam algumas costuras. Não demorou muito para o Jovem Visitante chegar à casa do criador em busca da boneca perdida. Prometeu costurar os bracinhos dela e ser mais cuidadoso. Então, sem reclamar o vestido amarrotado, o cabelo embaraçado ou os bracinhos descosturados, o Criador a entregou ao dono. A boneca sorria porque havia sido feita para isso.

O Criador ficou mais orgulhoso de sua criação quando um viajante, vindo de longe, disse buscar por suas bonecas. Somente as bonecas dele serviriam porque sorriam sempre e nada diziam, por isso eram perfeitas. O Viajante levou a segunda boneca, que parecia melhor que a terceira. Eles partiram e o coração do Criador se apertou. Sua segunda melhor boneca tinha um novo dono.

O Criador passou muito tempo com a terceira boneca na prateleira. A poeira se acumulava nela e, mesmo com o sorriso costurado, ela parecia não sorrir. Temia não conseguir arrumar um dono para ela. Já era uma boneca velha e não atraia mais a atenção. O tempo continuou a passar e a boneca continuava na prateleira. O Criador já perdia as esperanças, quando recebeu a visita de um homem estranho que desejava conhecer sua última boneca. O Criador, feliz, mostrou-a orgulhoso, levando-a até as mãos do Homem Estranho que pegou a boneca e, então, com um canivete, cortou a costura que segurava os lábios dela.

Ela falou. O Criador temeu que o Homem Estranho desistisse, mas ele sorriu e afirmou buscar uma Boneca como aquela. Não desejava, porém, ser dono dela e não a levou, mas prometeu voltar. E voltou. Voltou no dia seguinte, no próximo e no próximo. E ela falou. No dia seguinte, no próximo e no próximo.

O Homem Estranho não precisou carrega-la quando partiram, apenas estendeu a mão. Ela o aceitou e caminharam juntos. Se ela quisesse poderia, também, caminhar sozinha. Não era mais a boneca perfeita do Criador, ela era, apenas, a Boneca que desejava ser.

(Paulino, Simone. As três bonecas. In: Santos, Raphael (org). Palavreiras: contos e poemas que merecem ser lidos. Editora Autografia, Rio de Janeiro: 2018)

by
Share: