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É uma unanimidade, sempre que se fala em processo de escrita, a afirmação de que é preciso escrever todo dia. Mais que isso, é preciso separar um tempo dedicado exclusivamente para isso. Imagine como se você estivesse trabalhando numa empresa e precisasse “bater o ponto”, sempre no mesmo horário. É exatamente assim que deve ser com a escrita. É preciso marcar presença todos os dias no teclado ou no caderninho. Devemos, portanto, como escritores, criar o hábito da escrita cotidiana, estipulando períodos de tempo apenas para escrever.

Parece uma coisa bem distante, não é mesmo? Eu também acho, apesar de concordar que separar um tempo para escrita é essencial para qualquer escritor.

Desafios na criação do hábito da escrita: relato pessoal

Não sou o tipo de escritora disciplinada. Adoraria sê-lo. É muito recorrente ouvirmos assuntos como hábito de escrita e necessidade de escrita diária como meios de melhorarmos como escritores. Eu concordo com toda essa receitinha de bolo que sempre nos é passada. Descobri, entretanto, que sou péssima cozinheira ou melhor, descobri que me faltam panelas. Posso sentar num dia e escrever mais de dez mil palavras – porque tive tempo e as condições foram favoráveis – e depois passar semanas sem produzir uma linha sequer.

Faça o que eu digo, não faça o que eu faço

Acho mesmo fundamental escrever, escrever e escrever todo santo dia. Gostaria de conseguir separar no meu corre-corre diário um espacinho para isso. É bem verdade que ainda estou tentando abrir espaço na agenda, sempre tentando, bem no gerúndio. O trabalho, que realmente paga as minhas contas, não pode ser deixado de lado “apenas” porque estou me dedicando a uma nova obra. Nem mesmo minha família pode ser trancada dentro de um porão enquanto eu escrevo. Eles vão chamar, vão me interromper, vão bater à porta do meu quarto e, lógico, vão reclamar ao me verem no notebook “apenas” escrevendo.

Fazer arte é uma coisa extremamente complicada.Nem vou entrar no assunto e começar a discutir a questão do bem artístico, da autorrealização versus ganhos financeiros. Seria muito fazer uma apropriação e dizer que o essencial é invisível aos olhos?

Outro grande obstáculo para a minha criação de um hábito de escrita é a minha vizinhança. Quem tem a oportunidade de me acompanhar pelo Facebook ou Twitter, já deve ter ouvido um pouco da minha saga com meus vizinhos barulhentos. Eles já foram capazes de dar uma festa, de três dias ininterruptos, com o som aos berros.

Não faz muito tempo, eu estava tentando revisar um conto, afinal, a arte da escrita é a arte da reescrita. Então, passou o carro do ovo, – daquele que a galinha chorou para botar – depois mais dois carros de som anunciando uma escola e, para fechar, o vizinho do lado esquerdo começa a ensaiar para a cantata de Natal, berrando a plenos pulmões. Um isolamento acústico cairia muito bem!

Assim, esqueço o que vou escrever, logo em seguida, lembro e, finalmente começo a escrever. A posição da cadeira já não está tão boa. Mudo de lugar. As costas doem. Dane-se o texto! Já perdi o tesão na escrita.

Sempre que sento para escrever, sinto-me prestes a enfrentar uma Odisseia, uma guerra, uma busca particular pelo Santo Graal. Ou qualquer coisa que dê um trabalho danado para fazer. O hábitat não é favorável e acabo muitas vezes vencida e minha produção abortada.

Continuo escrevendo…

Meus melhores momentos de escrita sempre foram de madrugada, quando todos estão dormindo. Então, eu durmo mal, pois sou incapaz de desgrudar da escrita, até que ela seja, de fato, um texto do qual eu me agrade. Logo o despertador toca e dormi algumas poucas horas. Acordo para o trânsito de cada dia, para a agitação da sala de aula, para a indisciplina dos alunos, para o estresse resultante, para a dor de cabeça…

Ainda assim, as madrugadas são boas para prática. Exceto finais de semanas, por causa dos vizinhos da frente. Eles ficam com os porta-malas abertos, com os sons potentes em carros nem tão potentes assim. Não satisfeitos, eles gritam e, quando não há mais o que fazer, brigam uns com os outros. E a minha escrita briga comigo, sendo impossibilitada de nascer ali, em meio a tanto som e tanta fúria.

Escrever realmente não é fácil. Eu sigo tentando, apesar disso. Criar um hábito de escrita está entre minhas promessas de ano novo, há alguns anos. No momento, não poderei mudar de casa, nem tampouco dar um jeito nos meus vizinhos – afinal muitas maneiras de fazê-lo poderiam me botar na cadeia. Não espero também convencer a minha família que minha escrita é algo sério. Além disso, ainda não posso estender as horas do meu dia, nem diminuir o tempo que passo no trabalho. Sendo assim, se faz impreterível que eu tenha que pensar em meios de lidar com isso, se o que quero mesmo é escrever. Antes de criar o hábito de escrita, preciso criar estratégias possíveis, dentro da minha realidade, para poder, de fato, criar esse hábito.

Dicas, sugestões ou sofrimentos iguais? Os comentários estão abertos, é só chegar.

Até a próxima!

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