in Escrita, Escritora

Sob a sombra da árvore

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Por muito tempo desejaram ter uma criança. Casaram-se cedo, mas o fruto demorara a vir. Foi bem mais tarde, quando já velhos e quase entregues à desesperança, que o milagre aconteceu. Ela engravidou, mas a gestação foi longa e já durava anos e anos.

Numa noite a mulher teve um sonho. A criança só nasceria se o marido fosse capaz de plantar uma árvore. Quando ouviu a mulher falar sobre aquilo, o homem interpretou como um desejo e logo trouxe uma semente. O vendedor havia dito que daria uma árvore de tronco fino, mas com uma sombra bastante aprazível. A mulher examinou a semente e a descartou. Aquela não era a árvore que deveria ser plantada. Não poderia ser a semente de uma árvore qualquer.

O marido, apesar de velho e cansado, rodou meio mundo trazendo diversas sementes, mas nenhuma cabia nas exigências da mulher. Já retornava para casa, dessa vez sem semente alguma. Temia que a criança viesse a nascer em sua ausência. Havia, entretanto, no meio do caminho, uma velha senhora e ela lhe ofereceu uma única semente lisa e marrom. Não pediu nada em troca e o homem esperançoso aceitou aquela oferta.

A mulher olhou a pequena semente, passou o dedo na superfície. Era perfeita. Naquela mesma noite o marido a plantou e poucas horas depois a mulher deu à luz a uma menina.

A árvore crescia rápido e fazia uma agradável sombra na casa. A garota crescia rápido também e não havia quem não a conhecesse. Ela era a garota que tinha uma árvore. Era ela quem cuidava, podava os galhos ressecados, limpava o musgo que às vezes crescia pelo tronco. Eram belas, ela e a árvore. Tinha muitos pretendentes, mas apenas um a encantou. Viu-o passando pelos arredores da casa e foi inevitável a troca de olhares.

O rapaz se aproximou, mas disse que não conseguiria ficar ali, pois a raiz da árvore machucava seus pés. Então ela cortou, aparou a raiz da árvore e pediu a ele que se aproximasse um pouco mais. Ele se aproximou.

No dia seguinte, o rapaz reclamou que não poderia continuar tão perto dela, pois as folhas que caiam da árvore deixavam o lugar sujo e a sombra que ela fazia o deixava quase cego. Ela mesma subiu na copa e, com as próprias mãos, tirou folha por folha. Convidou-o a se aproximar e ficar mais um pouco.

Ele ficou, mas aquela árvore era um entrave. A capa grossa que revestia o tronco, arranhava a pele dele. A garota não titubeou e com as próprias unhas arrancou todo revestimento do tronco. Implorou que ele não a deixasse.

Já não eram mais tão belas, nem ela, nem a árvore. A garota sorria e aguardava pelo rapaz dia após dia. Ele se aproximava dela mais e mais e ela o amava mais e mais.

No dia em que ele a pediu em casamento, o fez sob uma condição: a árvore deveria ser derrubada. Segundo ele, a madeira era boa e poderiam fazer mesas, cadeiras e abastecer a lareira com ela. Apesar de não ter coragem, a garota tinha certeza: a árvore tinha que ser derrubada.

Deu ao pai o machado e pediu que fizesse o serviço. O homem, velho demais, não suportava o peso daquela tarefa. Mas o noivo, jovem o suficiente, poderia fazê-la. Ele derrubaria a árvore. Demorou toda noite atacando com o machado o grosso tronco, até que, por fim, a árvore foi ao chão com um estrondo. O casamento seria realizado.

Todos aguardavam a noiva que não saia do quarto. Nervoso, o rapaz que já não suportava mais a espera, bateu à porta, gritou o nome dela, exigiu que a garota saísse do quarto. Não sendo atendido, arrombou a porta. Encontrou apenas uma cama coberta de folhas.

 

Conto produzido na oficina de textos com a Marina Colasanti, em janeiro, no Instituto Estação das Letras (RJ).

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