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O sonho de Ulisses e dez contos fantásticos

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Na última terça-feira (dia 03 de outubro) eu lancei o meu mais novo livro: O Sonho de Ulisses e dez contos fantásticos.

Eu, de fato, sonhei muito com esse livro que se iniciou como um pequeno conto que eu enviaria para um concurso literário. Mas o conto ficou bem maior do que o requerido, ultrapassou o número de caracteres, então eu percebi que Ulisses era bem maior que isso.

O lançamento foi maravilhoso e teve música ao vivo fornecida pelos amigos de doutorado e leitura feita pela minha mãe e por uma amiga muito querida da família. Foi um momento único.

Essa obra foi mais uma parceria com a editora Autografia, responsável pelo meu primeiro livro, Poemas Colhidos.

O Sonho de Ulisses e dez contos fantásticos inicia com a história de Ulisses, um rapaz do interior que aprende a ler tardiamente e, após ler A Odisseia, decide sair para caçar sereias e, no meio de sua jornada, encontra diversas figuras do folclore brasileiro numa história quixotesca de autodescoberta.

O livro conta ainda com dez contos fantásticos, que descreverei aqui.

Dez contos fantásticos

O homem

Um homem descobre que embaixo de sua cama vive um outro homem exatamente como ele.

Deixe-me ir

Uma mulher não deixa o fantasma de seu passado partir e o obriga a visitá-la todos os dias.

Beijo de ano novo

Uma mulher beija o marido da melhor amiga durante a queima de fogos de ano novo. O conto segue sua angústia diante da possível suspeita da amiga.

O egoísta

Um homem cruel encontra um estranho animal em sua porta e o abriga em casa durante uma noite.

2465

Um explorador solitário narra sua decisão de reconstruir a Terra.

A pintura

Uma mulher fica obcecada pela pintura na parede do hall do prédio e passa a dialogar com ela.

A foto

Um fotógrafo de um jornal sensacionalista fica chocado após fotografar o corpo de uma menina que fora estrupada e morta. No dia seguinte, ele se descobre no dia anterior a morte da garota e começa a segui-la para impedir o assassinato.

A personagem

Uma personagem de livro infantil se rebela com sua posição na última fileira do cortejo nupcial e começa a avançar.

A ampulheta

Uma mulher recebe uma velha ampulheta de presente e descobre que aquele objeto pode consumir seus dias ou dar vida eterna, porém, com um custo.

Fim

O fim do mundo chegou e uma mulher tenta refletir sobre o que faria em seus momentos finais.

Degustação

Deixo para degustação, a primeira parte da novela que abre o livro.

 

O SONHO DE ULISSES
PARTE I: O encanto das sereias

Quando aprendera a ler já não era tão jovem e, apesar de ainda não ter alcançado os vinte anos, alguns cabelos brancos já decoravam a sua cabeça. A vida dura tornou-se um pouco mais suave, quando o professor Ambrósio, que era do tipo jovem altruísta, decidiu tomar para si a missão de ensinar aquele homem bruto a ler.
Foi aos poucos que ele começou. Foi quase sem querer que aprendera a ler. De princípio não queria, sentia-se envergonhado pela gagueira constante ao tentar juntar as palavras. Conduzido pela paciência de Ambrósio, seguiu letra por letra, até que passou a ler livros inteiros. Os primeiros eram simples e infantis para um homem que já havia vivido tanto, mas, ainda assim, o encantavam.
O professor Ambrósio, que tinha problemas de nervos, realizava-se ensinando a sua turma de um aluno só, uma vez que jamais poderia lecionar para mais que isso. Alguns contavam, aos cochichos, que Ambrósio uma vez tentou lecionar numa turma lotada de jovens, que tinham mentes pouco ansiosas para aprender e saiu de lá lançando livros e outros objetos em alguns discentes: foi o fim de sua breve carreira. Mas, Ambrósio tinha grande satisfação em ensinar e era grande o prazer que sentia quando percebia que o seu único aluno queria ler mais e mais. Então, o professor deixou à disposição sua biblioteca que, apesar de pequena, era o mundo inteiro para aquele jovem rude.

Tornou-se rotina que o rapaz pela manhã tivesse nas mãos uma enxada e à noite um livro. Estava ali a sua fuga da terra árida que o consumia. Era através das letras que ele escapava dos maus-tratos constantes dos tios. Os dois homens brutos, quase gêmeos de tão iguais, não escondiam de quem quer que fosse o ódio que tinham do bastardo deixado pela falecida irmã.
Pouco a pouco, o jovem começou a adentrar em leituras mais densas, aprendeu a usar o dicionário e usava palavras desconhecidas. Os tios não entendiam, que português era aquele? Eles não tinham curiosidade em aprender e não poupavam nas humilhações constantes ao sobrinho. “O rapaz é um metido a sabichão!” E de raiva — ou inveja — enchiam de trabalho o pobre garoto. Entretanto, o trabalho apenas o cansava, o que doía era quando falavam da mãe: “aquela louca que engravidou Deus sabe de quem e deixou um estorvo para nos atormentar!” Como ele poderia refutar o que diziam se a lembrança da mãe não passava de uma sombra dolorida no canto mais remoto da memória? Ele construía a mãe através do que os tios contavam: “Uma mulher louca, cheia de sonhos e devaneios!” Vez ou outra, ele sonhava com a mãe e ela sempre estava chorando. Nunca soube o porquê de tantas lágrimas, mas muitas vezes, acordou chorando também.

Ele trabalhava e lia, mas a vida limitada se expandia: ia para longe, bem longe. O livro daquela noite o levava pelo mar. E como era vasto o mar! Achava graça de compartilhar o nome com o protagonista daquela narrativa. Achava bom ver o seu nome repetidas vezes escrito em um livro. Adormeceu quando Ulisses resistia ao canto das sereias e sonhou. Sonhou que ele ia para longe, não viajando através dos livros do professor Ambrósio, ,contudo, ia de corpo e alma se distanciando. A terra seca, a enxada, a horta, o riso zombeteiro dos tios: tudo era deixado para trás numa fumaça que se dissipava no horizonte. Ele ia à frente, em um barco tão nobre quanto o de Ulisses, sentia a brisa do mar que nunca havia sentido em vida e ouvia um canto, o canto mais bonito de todos. Podia vê-las dançando na água, não era apenas uma, mas três sereias de cabelos coloridos e colo nu que rodopiavam na água e embalavam o navio com a sua canção hipnotizante. Queria deixar-se ficar ali e ouvir aquele som para sempre. Jogou-se ao mar, sem pestanejar e acordou com o baque surdo da Odisseia no chão.

Depois daquela noite fixou em sua mente uma ideia: encontraria uma sereia. Ele sabia que em seu sonho não havia resistido aos encantos daquelas mulheres mitológicas meio humanas, mas tinha consigo a certeza de que, não sendo um sonho, resistiria tão bravamente como resistiu Ulisses e contemplaria a maior beleza meio feminina existente na terra.
Largou a enxada um pouco mais cedo e foi encher de perguntas o professor Ambrósio. “Onde fica o mar?”, “Quanto tempo demora para chegar?”, “Como arrumo um barco?” ,“Como se caça sereia?” Professor Ambrósio ficou perplexo com tantas perguntas e forçou um sorriso amarelo encarando o papel de destruidor de sonhos ao dizer com todas as palavras que sereias não existiam. Ulisses se pôs de pé com a flechada atirada pela língua de Ambrósio. Seriam suficientes algumas palavras para matar um sonho? Saiu sem mais nada dizer e bateu a porta. Ouviu o professor exclamar algo de dentro da biblioteca, porém, não se importava com o que Ambrósio tinha para dizer. O professor era um homem jovem com raízes profundas, cheio de receios do mundo, escondido debaixo das sete saias, das sete irmãs que dele cuidavam como um bebê crescido. O que ele sabia do mundo? Ulisses também não sabia muito além da circunferência da terra dos tios, mas era pássaro novo, com as asas ansiosas para voar.

Foi remoendo o pensamento, refletindo em outras pessoas que poderiam sanar as suas dúvidas. Os homens daquela cidade sabiam muito menos que Ambrósio e até muito menos que ele. A inteligência daquele povo estava em puxar o arado e contar as estações de plantio, como saberiam das sereias? Listou mentalmente as pessoas que poderiam já ter saído daquele lugar e ninguém lhe veio à mente, exceto o Doutor Macedo a quem todos conheciam como Doutor Peniquinho. O título de doutor era apenas dado ao ego inflado de Macedo que tinha passado um bom tempo na cidade do Rio de Janeiro, mas não chegara a concluir a faculdade. Alguns diziam até mesmo que o único estudo do doutor Macedo foi levantar paredes e virar massa, mesmo assim, voltando à cidade natal, no interior da Bahia, exigiu ser chamado de “doutor” e, desse modo, faziam os capiaus. A alcunha “doutor Peniquinho” era a vingança dos conterrâneos a exigência que Macedo fazia de ser chamado de doutor. Doutor Macedo era um homem relativamente rico, comparando-o aos vizinhos que viviam entre a fome e a miséria. O bisavô dele havia feito uma pequena fortuna vendendo penicos, o que garantiu a compra da fazenda que se tornou herança de família. Apesar de prepotente, Ulisses sabia que Doutor Macedo era o único homem das redondezas que já havia estado perto do mar.

No dia seguinte foi conversar com o Doutor Macedo. A princípio o homem fingiu não ver Ulisses passar pelos portões da fazenda, talvez imaginasse que ao ignorá-lo o faria ir embora. Ficou sentado na soleira do casarão, com o bigode farto meio sujo de farinha, com o corpo descansando na cadeira de balanço e a espingarda descansando no colo. Ao ver Ulisses com o seu corpo franzino projetar a sua sombra na soleira, o homem alisou a arma de forma ameaçadora. Por mais ingênuo que Ulisses fosse, sabia do quanto Doutor Macedo era precavido com todos daquela cidade. O homem havia se isolado em seu elevado degrau de soberba, apesar da falência explícita na qual se encontrava a fazenda herdada. Ulisses falou tudo o que tinha para dizer, tudo o que tinha para perguntar, ali mesmo na soleira. Falou tão rápido que as palavras por vezes se atropelavam, mas nunca deixou de usar o respeitoso “doutor” no meio de suas frases. Quando terminou de falar, as bochechas do velho pançudo se mexeram em algo que talvez fosse um sorriso e um brilho estranho surgiu em seus olhos. Convidou Ulisses para entrar e serviu ao rapaz um pouco de uma bebida amarga. O homem falava com uma voz forte sobre o que sabia das sereias, não as de Ulisses, mas a Iara que vivia no Brasil. Afirmou que se o jovem fosse para o mar só encontraria peixes, pois era na água doce que as sereias daqui viviam. Doutor Macedo falou dos encontros que tivera com a Iara e até afirmou ter capturado uma quando passou rapidamente pelo Amazonas, mas por pena a devolveu ao rio. Confessou ter aprendido com um velho índio a tecer redes capazes de capturar uma sereia e explicou como, muito rapidamente, eram feitas. Disse ainda que o jeito de atrair uma sereia era entregar-se ao rio e esperar ser resgatado por uma delas. Elas se encantavam com afogados. A cada palavra, o homem tomava um gole daquela bebida amarga. Ulisses saiu da fazenda com o coração cheio de esperanças. Ouviu ao longe a gargalhada do Doutor Macedo e partiu decidido a capturar para si uma sereia.

Espero que tenham gostado e, caso queiram adquirir o livro, ele está à venda no site da editora Autografia.

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12 Comments

  1. Mayara Vieira . Site

    Que legal. Parabéns! Mt sucesso pra vc!

    http://www.mayaravieira.com.br

    07 . Out . 2017
    • Simone . Site

      Obrigada! 🙂

      13 . Out . 2017
  2. O diário da Inês . Site

    Que bom, o livro parece ser bem interessante! Muito sucesso. 🙂 Beijinhos

    O diário da Inês | Facebook | Instagram

    08 . Out . 2017
    • Simone . Site

      Obrigada!
      Se quiser, pode comprá-lo através do link que está na postagem.
      😉

      13 . Out . 2017
  3. Wanessa . Site

    Que tudo!!
    Parabéns e muito sucesso.
    bjoka http://diadebrilho.com

    09 . Out . 2017
    • Simone . Site

      Obrigada! 😉

      13 . Out . 2017
  4. Camila Faria . Site

    Parabéns por mais essa conquista Simone e muito sucesso com o livro! <3

    10 . Out . 2017
    • Simone . Site

      Obrigada! 🙂

      13 . Out . 2017
  5. Mariana . Site

    Você é mesmo incrível Si, e merece todo o sucesso! Tem que escrever mais uns 20 livros! Que delícia que é poder trazer mais um livro ao mundo, do jeitinho que tu sonhou! E a tua escrita é uma delícia, fiquei curiosa pra ler os outros contos! Preciso comprar um livro, mas vou querer uma versão autografada! <3

    12 . Out . 2017
    • Simone . Site

      Obrigada, Má!
      Estarei em Sampa no início de novembro, se comprar, eu autografo para vc! 😉
      Beijos!

      13 . Out . 2017
  6. Clayci . Site

    Que sonho Si!
    Parabéns por essa conquista <3
    Deve ser uma experiência maravilhosa e fico super feliz em ver vc assim toda realizada <3
    SUCESSO SEMPRE

    Beijos

    14 . Out . 2017
    • Simone . Site

      Foi uma grande realização e fiquei muito feliz com o resultado da obra. 😉
      Obrigada!

      22 . Out . 2017

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