sobre-cabelo-e-autoconhecimento-transicao

Pode soar estranho que eu coloque aqui no título desta postagem as palavras “cabelo” e “autoconhecimento”. Eu poderia usar as palavras empoderamento, autorreconhecimento. Todas seriam adequadas, mas acredito que, para mim, o meu cabelo ajudou que eu me descobrisse.

O mês de setembro, mais precisamente o dia 06, é uma data que venho comemorando nos últimos dois anos. O motivo da festa são meus cabelos que, nesta data, há dois anos, eu cortei completamente, deixando apenas dois dedos para me livrar de toda química. 

Por que eu fiz isso?

As meninas que tem os cabelos crespos e cacheados talvez compreendam melhor essa postagem. Não que outras não conseguirão entender, mas acho que falará mais ao íntimo daquelas que já trilharam o caminho das químicas, alisamento,  tentativas de modificar a estrutura do cabelo afro num processo de “embraquecimento”. Não estou apontando o dedo e recriminando quem alisa. Cada um faz com seu cabelo como se sentir melhor, mas convido todos a pensarem, por um instante, por que o cabelo crespo incomoda tanto? Por que o padrão de beleza é o liso? Se a palavra RACISMO veio a sua mente, acredito que estamos em sintonia. 

O cabelo crespo incomoda, é feio,é o cabelo “ruim” porque é um cabelo tipicamente negro e, na verdade, quando recriminamos esse cabelo, estamos fazendo uma espécie de metonímia do preconceito. Lembra aquela figura de linguagem que se troca a parte pelo todo? Então, você fala do cabelo para desmerecer a raça negra. A parte pelo todo, entenderam? 

Eu demorei a entender que discriminar o meu cabelo era também discriminar a minha raça. Não era só uma questão estética, era bem mais que isso. 

Químicas e mais químicas…

Eu, desde nova, sempre me senti incomodada com o meu cabelo. Minhas primas são todas brancas com o cabelo “bom” e o meu sempre tinha que estar amarrado, pois solto ficava uma bagunça só. Então, a Simone criança tinha um sonho: ter os cabelos lisos para usá-los soltos. Isso demorou um pouco a acontecer. Primeiro passei por químicas e mais químicas do permanente afro ao super relaxamento. Então, entrou na moda as escovas que alisavam, alisavam de verdade qualquer cabelo. Eram horas e horas no salão, com o formol queimando o couro cabeludo e muitas lágrimas com os vapores que fechavam a garganta. Tudo valia para ter os cabelos lisos.

Eu finalmente tinha os tão sonhados cabelos lisos, mas eles eram frágeis, ficavam quebrando, não importava o tratamento que eu fizesse ou o quanto eu gastasse em produtos, o cabelo sempre ficava com as pontas com um aspecto emborrachado. Nada de piscina, Sol e calor faziam suar e a raiz ficava “fofa”, alta, revelando os “parentes” tão indesejáveis.

Meu cabelo quando decidi começar a transição

Transição?!

Comecei a ler sobre a transição capilar. Para quem não está familiarizado com o termo, ele se refere ao processo no qual se tira toda a química para resgatar o cabelo natural. Isso geralmente vem com um corte radical, tirando todas as partes com química. A esse corte damos o nome de Big Chop (BC). Eu estava com muito medo de fazer a transição, principalmente por causa dessa etapa final. Talvez, não fosse tão ruim continuar alisando o cabelo eternamente…

O que me fez tomar a coragem necessária (acreditem!) foi um comercial da Dove. Depois de assistir a esse comercial, reuni forças e comecei a transição capilar!

O comercial da Dove

Como foi minha transição?

A transição não foi moleza, mas posso dizer que valeu a pena. Eu não tive coragem de fazer o BC de cara, então fui fazendo pequenos cortes e convivendo com duas texturas no cabelo (uma lisa e outra cacheada). Tive que usar e abusar das texturizações (usando bigudinho circular para cachear a parte lisa e abusando do gel!). Chorei muito, pois nesse momento você se sente feia, para baixo, o próprio Patinho Feio do Hans Christian Andersen. O bom é que no final ele descobre ser um belo cisne! (Ops! Spoiler!).

O momento crucial de toda essa história aconteceu no dia 06 de setembro de 2015, quando eu passei pelo tão temido Big Chop. Eu fiquei com apenas dois dedos de cabelo. Eu nunca havia tido o cabelo tão curto. Ouvi muitas piadas sem graça, mas também tive muito apoio, principalmente da minha irmã, Silvia, que passou pelo processo junto comigo.

Eu um dia após ao BC

O cabelo foi crescendo, crescendo e eu fui amando cada um dos meus cachinhos. Sinto que a transição foi mais que isso, foi uma metamorfose. Sabe aquela autodescoberta do título? Então, eu me descobri bonita com os meus cabelos naturais, eu percebi que estava desde a infância tão dominada por um modelo eurocêntrico de beleza que eu não havia percebido que o meu cabelo nunca foi “ruim”, nunca foi “feio”, muito pelo contrário. 

Hoje fico feliz por ter reconquistado os meus cachinhos e de me reconhecer como uma mulher negra e ter orgulho do meu cabelo, da minha cor e, principalmente, de quem eu sou.

Um ano após o BC

Todo meu apoio a quem está passando pela transição ou que deseja passar. O processo vale muito a pena! Esse mês estou completando dois anos com o meu cabelo cacheado. Estou a cada dia mais apaixonada!

Fotos após dois anos do Big Chop

  
Você conhece alguém que já passou pelo processo?

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